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Segundo pesquisa, falta de emprego e educação atrapalha participação de jovens

Estudo realizado pelo Ibase e Instituto Pólis revela que o grande entrave ao maior engajamento desta parcela da população na participação política e social são os condicionantes sócio-econômicos. 27% da juventude está fora tanto da escola quanto do mercado de trabalho.




BRASÍLIA – Um discurso comumente propagado pela mídia é o do saudosismo das mobilizações de massa dos anos de chumbo, em especial do movimento estudantil e outras organizações juvenis. É freqüente ver, desde em reportagens de jornal até em conversas informais, comparações desmerecendo o jovem de hoje, classificando-o como alienado e menos politizado do que a geração dos anos 60 e 70. Para verificar em que medida tal afirmação é realmente verdadeira, o Instituto Brasileiro de Estudos Sócio-Econômicos (Ibase) e o Instituto Pólis promoveram pesquisa sobre a juventude e a participação política. O estudo, que ouviu mais de 8 mil jovens nas grandes capitais do país, apontou uma mudança nas formas de participação social e política dos entrevistados e revelou que o grande entrave ao maior engajamento desta parcela da população são os condicionantes sócio-econômicos, em especial a falta de educação e trabalho.

"Existe uma íntima relação entre as condições materiais de vida e a participação social e política. O agravamento das condições de vida da maioria da população jovem brasileira incide diretamente no aumento da sensação de insegurança no presente e das incertezas quanto à vida futura”, explica Paulo Carrano, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) e um dos realizadores da pesquisa. O estudo mostrou que os jovens das classes A e B (33,5%) e os mais escolarizados participam mais do que a média dos jovens (28,1%). Os desafios ao engajamento em algum grupo são aumentados pelo fato de 27% dos entrevistados estarem alijados tanto da escola quanto do mercado de trabalho.

Segundo Eliane Ribeiro, professora da Faculdade de Educação da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e uma das coordenadoras da pesquisa, este quadro é provocado exatamente pelas deficiências das políticas de universalização da educação e inserção dos jovens no mercado de trabalho.“Eles não estão nessa situação porque querem. Alguns saíram da escola porque repetiram várias vezes. Outros tentam entrar numa universidade ou conseguir um emprego, mas neste país isso não é tão simples", afirmou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Na área da educação, o baixo número de matrículas nas universidades, principalmente nas públicas, é um fator determinante para a manutenção deste cenário. Mas há um gargalo anterior e mais sério: a falta de vagas no ensino médio. “Nós falamos muito de dificuldade de entrada do jovem na universidade, mas esquecemos que 70% dos jovens não entram no ensino superior por que não têm acesso ao ensino médio. Da juventude que está estudando, apenas 33% concluíram o ensino médio”, comenta o deputado federal Claudio Vignatti (PT-SC), integrante da comissão que discute na Câmara o Plano Nacional da Juventude. O parlamentar cita como medida positiva para atacar este problema o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) que visa a universalizar todo o ensino básico (antigos 1o e 2o graus).

Este cenário de exclusão educacional aparece no estudo do Ibase e do Pólis. Dos 8 mil jovens entrevistados na pesquisa quantitativa, 52,9 % não estavam estudando. Resultado semelhante é verificado em levantamento feito pelo governo federal, que atestou a presença de apenas 50% dos 34 milhões de jovens de 15 a 24 anos na escola, com 11,2 milhões com ensino médio inconcluso e 1,2 milhões de analfabetos. Na avaliação do Secretário de Juventude do PT, Rafael Pops, mesmo com o Fundeb, é preciso que o governo aumente o conjunto dos recursos destinados para a educação, chegando aos 7% do Produto Interno Bruto Brasileiro previstos no Plano Nacional de Educação (PNE) e vetados pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.

MERCADO DE TRABALHO
Outro problema que segundo a pesquisa atinge os jovens e tem impacto direto na sua organização social e política é o baixo acesso à renda, com destaque para a dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Se cruzado o número de jovens que não estão trabalhando (60,7%) com o percentual de entrevistados à busca de remuneração (62,9%), mesmo excetuando os jovens que estão na escola é possível afirmar que a pesquisa demonstra entre sua amostragem uma demanda fortemente represada de entrada no mercado de trabalho.

Esta busca por emprego vem se configurando como alternativa freqüente à situação de pobreza e miséria das famílias destes jovens. Segundo o Censo de 2000 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), 40% dos jovens brasileiros vivem em famílias sem rendimento ou com renda de até meio salário mínimo. Este processo de entrada de uma massa de jovens no mercado de trabalho combinado com a forte representação deste segmento na população brasileira (se considerados os jovens de 15 a 29, o segmento reúne 48 milhões de pessoas) gera uma situação de extremo desemprego, na qual a juventude representa 50% dos desempregados do país. Este processo também tem impacto na precarização das vagas obtidas por estes indivíduos. Na maioria das vezes sem experiência e pressionados pela forte concorrência, os jovens aceitam empregos sem carteira assinada, modalidade de contratação que, de acordo com o Censo do IBGE, constitui 65% das vagas ocupadas por esta parcela da população.

"Na década de 70, a trajetória razoavelmente linear era o jovem se formar, conseguir um emprego e sair de casa porque adquiria independência econômica dos pais. A instabilidade do mercado de trabalho hoje, no entanto, pôs em xeque esse processo de emancipação. Eles passam mais tempo estudando e têm mais dificuldade para conseguir um emprego que dê a possibilidade de sustento sem depender da família", analisa Juliana Leitão e Mello, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Na opinião de Rafael Pops, o problema do desemprego juvenil só tem de ser resolvido atacando a raiz do problema, a estrutura desigual da sociedade brasileira. A incorporação do jovem ao mercado de trabalho, segundo Pops, só poderia ser feita com o crescimento da economia e o aumento dos investimentos sociais. Uma das alternativas é o já alvo da imprensa programa Primeiro Emprego, do Ministério do Trabalho. Segundo Remígio Todeschini, secretário de políticas públicas da pasta, a iniciativa tem dado bons frutos, com 142 mil jovens inseridos no mercado e 334 mil em processo de qualificação profissional.

PARTICIPAÇÃO
Outra conclusão da pesquisa é a existência de um processo de mutação nas formas e espaços de participação dos jovens. De acordo com o Estudo, a participação em grupos é vivida por 28,1% dos jovens. Diferente do tradicional movimento estudantil, hoje as principais atividades organizativas dos jovens se dão em ambientes e organizações ligadas à religião (42,5%), ao esporte (32,5%) e à arte e cultura (26,9%). Na avaliação de Paulo Carrano, existe um processo de perda de credibilidade das entidades políticas tradicionais para novas formas de organização.
“Os rapazes e as moças participantes da pesquisa não rejeitam a política de maneira definitiva. Porém, emitem mensagens que evidenciam profunda desconfiança nos operadores políticos tradicionais – “os políticos” em sua acepção mais ampla. Ao mesmo tempo em que há pouca confiança naquilo que se assemelha à política tradicional, é possível perceber a emergência outras esferas participativas que, pode-se dizer, ainda necessitam ser mais bem compreendidas pelas investigações sociais”, analisa.

Segundo Rafel Pops, há uma evolução da participação da juventude, mas estas novas formas de participação criam um ambiente com pouco diálogo entre as diversas iniciativas. “A juventude brasileira está cada vez mais organizada. Contudo, de maneira muito fragmentada em cada movimento. Várias organizações reúnem milhares de jovens em seus encontros e congressos, mas muito pouca relação existe entre eles”. Para ele, o debate de políticas públicas para a juventude, tanto no âmbito do Executivo quanto do Legislativo, pode ser um catalisador para que todos estes grupos aprofundem sua articulação.

Na opinião do secretário nacional de Juventude do governo federal, Beto Cury, a instalação do Conselho Nacional de Juventude foi um importante passo para reunir toda esta diversidade de movimentos juvenis. O Conselho é composto por 60 membros, sendo 40 da sociedade civil. Neste espaço, estão presentes desde entidades que trabalham com juventude até as mais variadas organizações juvenis, como os grupos católicos e evangélicos, o movimento estudantil, o movimento sindical e as entidades ligadas ao Hip Hop. Cury informa que uma das ações da Secretaria Nacional de Juventude tem sido a articulação com estados e municípios com vistas a criar conselhos nestas esferas da Federação, para que haja uma rede de instâncias institucionais de diálogo em todo o país.

“O Conselho desempenha papel fundamental, pois é um espaço em que a sociedade organizada e o poder público se encontram para debater, formular e acompanhar as políticas públicas que tocam a juventude”, diz Cury.

Já para o deputado Cláudio Vignatti, as lideranças juvenis precisam entender estas novas formas para ampliar mais a organização desta parcela da sociedade com vistas a pressionar o Estado. “Acho que hoje as lideranças juvenis vão ter que se preocupar com isso, em como dialogar com a juventude, pois não há transformação da sociedade se a juventude não se organiza. Temos um grande desafio no sentido de que a juventude assuma seu papel de cobrança. Não tem nenhum tipo de política pública que funcione sem organização e pressão social”, conclui.

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